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  • Pobreza não é fonte de violência. Desigualdade social, sim, gera violência

    Pobreza não é fonte de violência. Desigualdade social, sim, gera violência
    Isabella Lanave

    Em palestra de abertura no V Seminário Estadual sobre a Criança e Adolescente, o presidente da Comissão de Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa, deputado Tadeu Veneri , questionou a associação entre pobreza e violência e denunciou a ação repressiva do estado na periferia e a ausência de ações de acolhimento. O Seminário foi realizado no auditório da Faculdade Bagozzi, em Curitiba, nesta quinta-feira, 17.

    Para Veneri, a violência não é produto da pobreza. Mas uma consequência da desigualdade social.“De tanto que se repete, acaba sendo tomado como verdade a relação entre violência e pobres. A mídia não mostra a violência dos ricos nos seus espaços, nos condomínios de luxo, nos bares da moda. E o estado naturalmente age repressivamente na periferia. O braço mais conhecido do estado na periferia é a repressão. O mais desconhecido é o acolhimento”, disse Veneri que abordou o tema “perda de direitos e desigualdade social”.

    Veneri citou dados sobre a violência no Brasil, que ocupa o primeiro lugar no mundo em número de homicídios. Em 2014, foram registrados 59.627 assassinatos, ou seja, 10% do total mundial. E 53% dos homicídios de jovens entre 15 e 19 anos em escala mundial são cometidos no Brasil, mostra o Mapa da Violência de 2014.

    Os números assustam, mas a indiferença é um dado tão chocante quanto, assinalou Veneri. “O que surpreende é a indiferença, a banalização”, afirmou. A violência passa a ser considerada rotina e o estado não se sente obrigado a atuar nas causas, mas apenas nos efeitos, transformando o país num dos que mais encarceram no mundo, destacou.

    No país, ainda se combatem as políticas públicas dirigidas a reduzir as desigualdades sociais com o discurso da meritocracia, disse Veneri. “Como se o mérito e o esforço superassem todas as deficiências”, afirmou. Uma tese desmentida por vários estudos, como o da Oxafam, organização não governamental internacional ,mostrando que grande parte dos ricos do país herdaram suas grandes fortunas. “São heranças familiares. Não tem nada a ver com mérito”, reforçou.

    E esse sistema de privilégios se reproduz com a ausência de taxação das heranças familiares e dividendos das empresas e o excesso da carga tributária sobre os salários e produtos de consumo em larga escala. Os 10% mais pobres do país gastam 32% da renda em impostos indiretos. Os mais ricos gastam 20% do que ganham em impostos indiretos. O sistema tributário brasileiro favorece quem tem mais e pune quem tem menos, comparou Veneri. “Esse processo é que gera e mantém a desigualdade”, reforçou.

    Nas estatísticas mundiais, o Brasil é o sexto país mais desigual. Atrás apenas do Haiti, Madagáscar, Camarões, Tailândia e África do Sul.

    Palestras

    O Seminário debateu também os temas Diagnóstico das violações dos direitos das crianças e adolescentes, que foi abordado por Renann Ferreira, do Fórum dos Direitos da Criança e Adolescente, O impacto da violência na vida das crianças e adolescentes, cujos expositores foram Adriana Turbay e Guilherme Jaccon, e Experiências Exitosas, por Humberto Herrera. À tarde, foram realizadas oficinas temáticas.

    Realizado pela Comissão de Direitos Humanos, o Seminário teve o apoio da Pastoral do Menor,  Universidade Federal do Paraná,  Fórum da Criança e Adolescente,APP Sindicato - Curitiba- Norte, Centro Social Marista, Cepat, CNBB, Conselho Tutelar de Curitiba (CIC, Matriz, Portão, Boqueirão) e das ONGs Passos da Criança e Centro de Transformação Social Vida Nova.